Maternidade produtiva
Os dilemas maternos que vêm de uma lista infinita de prioridades.
“Sam Elliot estava decidido a se sair bem em seu novo papel, então, sem pensar direito, disse sim a muitos pedidos. Como resultado, passava o dia inteiro correndo de uma reunião para outra, tentando atender a todos e cumprir todas as tarefas. Conforme o estresse aumentava, a qualidade de seu trabalho caía. Era como se estivesse se dedicando mais justamente às atividades menos importantes. Em consequência disso, seu desempenho se tornou insatisfatório para si mesmo e decepcionante para aqueles que ele tanto queria agradar.”
Assim começa o livro Essencialismo, a disciplinada busca por menos. Porém, se você é mãe, não é mera coincidência identificar-se com Sam, ainda que não ocupe nenhum cargo gerencial dentro de uma empresa. Após a chegada dos filhos, as funções da mulher parecem se multiplicar. Também pudera… Além de ter de cuidar de si, ela tem outras vidas para administrar e isso exige muito tempo. No fim das contas, a gente acaba entendendo que não cabe tudo na nossa rotina. Dar conta de tudo é impossível! Logo, se você tem a impressão de que alguém está com todos os pratinhos de obrigações, prazeres e relações rodando ao mesmo tempo e com maestria, saiba que alguma coisa você não está enxergando. Ou há uma boa rede de apoio orquestrada por trás dessa rotina bem-sucedida, ou alguns pratinhos já caíram no chão há muito tempo e você, que olha de fora, nem notou.
Outro dia, comentei em meu perfil do instagram que ir até o pilates, ou aceitar um convite para estar com as amigas era como me preparar para dias de guerra, visto que dá muito trabalho levar as crianças comigo aonde quer que eu vá e, ainda assim, cumprir com o horário de meus compromissos e cuidar delas e de mim mesma. Porém, aos meus olhos, eu não tinha outra opção, pois colocar meu corpo em movimento e cuidar de minhas relações é importante para o meu bem-estar. Mas, logo recebi a mensagem de uma amiga que dizia ver tudo isso de forma estimulante, mas que mesmo assim, tinha resolvido fazer o processo contrário. E com muita sinceridade explicou-me:
“A maternidade me pesa porque eu sou assim, oito ou oitenta, e não consigo mexer nessa minha estrutura mental. Então, eu fiz foi dar passos decididos para trás e parei sim de me cuidar e pensar em mim. Porém, relativizei isso um pouco, por tempo precisei focar nisso, mas, ainda assim de forma secundária e priorizando as crianças. Minha filha chegou aos oito anos e percebo que agora isso já relaxa para mim... Meu filho já já chegará aos sete, ainda tem quatro. Aí eu vou, aos poucos, voltando a pensar em mim. Por enquanto, vou lutando a luta que dá.”
Ela tem a sua razão em recuar e sabe bem que, apesar de abandonar uma rotina antiga, elevou seu grau de produtividade, porque encarar o papel de mãe é sim ser muito produtiva, ainda que a sociedade não reconheça assim. E a melhor parte que vi de sua decisão é a felicidade com sua escolha.
Aproveitando o gancho da sinceridade, contarei um pouco da minha própria experiência (e nunca para vestir a vaidade de que faço coisas demais, mas, para percebermos que nossa batalha pode ser a mesma, ainda que, em endereços diferentes). Quando engravidei de minha segunda filha, já tinha voltado ao mercado de trabalho formal, encarava ser aluna especial de um programa de mestrado em psicologia, cuidava da casa, tinha uma filha de 2 anos debaixo do nosso nariz 24h/7dias (sem telas) e vivia a incerteza da pandemia de 2020/21. Não estava sozinha, tive meu esposo ao meu lado, mas também não caio na ficção de dizer que aqui somos 50% / 50%, porque pessoalmente não acredito na existência dessa divisão exata, ainda que o parceiro seja muito consciente de sua participação dentro do espectro familiar. Resultado? Não sentia mais meu corpo, apenas cumpria com minhas obrigações como um robô (mal) programado e, por fim, os resultados apareceram na máquina humana muito cansada. Lembro-me de, na maternidade, ouvir perguntas como: você tem sentido dor quando? Há quanto tempo tem tido mal estar?… Eu não sabia responder. Das três gestações evoluídas, na segunda foi quando mais inchei, passei mal e chorei. Minha bolsa estourou quando eu ainda estava com 36 semanas e cheia de programações na agenda que nunca foram cumpridas. Nada me tira da cabeça que é porque o meu corpo não aguentava mais. Assim que peguei minha filha nos braços, entrei de licença maternidade, dei tchau para quase todos os projetos em que estava envolvida e encontrei minha paz. Levei muito tempo para voltar ao mercado, fiquei por um tempo e saí de novo. Se colocar na ponta do lápis quantitativo, perdi muito mais do que ganhei, inclusive o salário - parte da renda familiar. Mas nada do que passava em minha agenda era minha prioridade absoluta como acompanhar de perto o desenvolvimento das minhas filhas.
Minha prioridade. E eu sei o tamanho do meu privilégio de poder fazer essa escolha. Nem todas escolhem, apenas agem para sobreviver, porque é assim que dá para ser.
Mas, digo também que é preciso muita coragem para abandonar vaidades pessoais, a academia ou a carteira de trabalho por um tempo, porque o combo é visto como sinal de status pela sociedade. E quando a gente perde esse status, a gente perde um pouco de si também. Vem aquela sensação de não estar sendo produtiva, ainda que você trabalhe sem pausas o dia inteiro; sem direito a férias, feriados e finais de semana.
Olhando para as duas narrativas acima é possível entender que nenhuma história é exatamente igual a outra. As prioridades de uma família mudam conforme seu próprio contexto. Portanto, nem todas as mulheres estarão com a mesma dinâmica de vida: voando na carreira, ganhando dinheiro, educando os filhos em casa, com a academia e terapia em dia. Não dá. Alguma coisa a gente precisa tirar do radar, para quem sabe retomar em outro momento da vida.
O bálsamo para a sensação de não estar fazendo nada pode ser compreender a importância da atenção materna e educação familiar para uma criança que vive sua primeira infância e que seu trabalho bem-feito vai chegar à sociedade com o seu filho adulto bem-criado. E, mais: já já passa e não volta mais.
Laura Vanderkam – mãe de cinco, escritora e palestrante especialista em produtividade – tem uma frase que diz o seguinte: quando nos focamos no que é importante, construímos a vida que queremos no tempo que temos.
Então, talvez pare de doer tanto se a gente se fizer esta pergunta: o que é importante? Se você responder “a família/os filhos” e precisar abandonar projetos para fazer valer a sua resposta, fique em paz. Eu ainda acrescentaria mais uma pergunta: sua prioridade tem deixado você feliz?
Para ler:
🤓Matéria na revista Vida Simples com estratégias para melhorar a produtividade sem sofrer um burnout. Um trecho interessante que aparece no artigo é a importância de “se conhecer profundamente, compreender os limites, vetores de angústia e respostas emocionais que sirvam para você”. Isso serve para mães e mulheres sem filhos.
Para aprender e testar:
🖥️No site Ferramentas da Qualidade você encontra vários testes que podem auxiliar no desenvolvimento pessoal (as ferramentas geralmente são usadas para análise empresarial, mas, nada impede que sejam adaptadas para a sua própria vida). Entre eles, parâmetros para avaliar a urgência, gravidade e tendência de determinada ação. Um jeito de escolher o que vai e o que não vai para a lista de prioridades.
Para maratonar:
📝A página da Mirley Wohlers. Descobri por indicação da Tatiane Pinheiro .
Para estudar e se conhecer melhor:
💭Um dos cursos da minha lista de prioridades para concluir neste ano, mas, que encontra-se pendente no determinado momento é o Planeje Sua Vida, da Fê Neute. A maneira como ela elaborou as aulas nos ajuda a entender melhor quais são os nossos valores e a elencar as nossas prioridades de forma mais coerente.






